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teleSUR: há 20 anos traçando uma nova linha do equador nas comunicações


“[…] porque en realidad, nuestro norte es el Sur. No debe haber norte, para nosotros, sino por oposición a nuestro Sur. Por eso ahora ponemos el mapa al revés, y entonces ya tenemos justa idea de nuestra posición, y no como quieren en el resto del mundo. La punta de América, desde ahora, prolongándose, señala insistentemente el Sur, nuestro norte.”

Joaquín Torres García


“Nosso norte é o sul”. Foi através das palavras do artista plástico uruguaio Joaquín Torres García que a teleSUR anunciou a que veio no dia 24 de julho de 2005, data que marca o nascimento de Simón Bolívar, o líder da independência da região onde atualmente é a Bolívia, a Colômbia, o Equador, o Panamá, o Peru e a Venezuela. Fugindo da lógica de que o jornalismo é um espelho da realidade, concepção que ainda é predominante no mundo ocidental e que tenta garantir a credibilidade junto ao público, mas só dá eco ao discurso da imparcialidade, o canal deixa claro de onde se posiciona. Existe um “sul” que norteia a sua cobertura e, mais do que uma coordenada geográfica ou uma divisão econômica entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, esse “sul” é ideológico.

Este jornalismo, que de cara já afirma que não é imparcial, é diretamente influenciado pelo momento histórico em que surge. A teleSUR é um veículo que nasce em meio a um continente passando por transformações. Após anos de políticas neoliberais na América Latina – que deixaram como consequência desemprego, crise econômica e aumento da miséria na região –, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, diversos países sul-americanos elegeram governos com discursos progressistas. Em 1998, o povo venezuelano elege Hugo Chávez, alguns anos depois, Lula é eleito no Brasil (2002), Néstor Kirchner, na Argentina (2003), Tabaré Vázquez, no Uruguai (2004), Evo Morales, na Bolívia (2005), Rafael Correa, no Equador (2006), Fernando Lugo, no Paraguai (2008). Ainda que as experiências tivessem diferenças entre si, todas coincidiam na necessidade de políticas de integração regional.

Diante de um golpe que foi claramente midiático, com manipulação de imagens e censura a jornalistas, ao retornar à presidência, Chávez se lançou em uma batalha contra-hegemônica na comunicação enfrentando as grandes corporações nacionais e internacionais.

Quando Hugo Chávez assume a presidência da Venezuela em 1999, ele convoca uma nova constituinte, inicia um processo de reforma agrária e cria programas sociais mantidos através da renda petroleira. As medidas implementadas não agradam a burguesia local que sempre governou o país. No dia 11 de abril de 2002, a oligarquia venezuelana, com a ajuda dos meios de comunicação, tenta um golpe de Estado. Após três dias de conflitos nas ruas de Caracas, Chávez, que até então estava sequestrado, volta ao governo. A tentativa de golpe deixou evidente que, quando os meios tradicionais falham, é a comunicação alternativa que vai cumprir o papel de defender a democracia.

Diante de um golpe que foi claramente midiático, com manipulação de imagens e censura a jornalistas, ao retornar à presidência, Chávez se lançou em uma batalha contra-hegemônica na comunicação enfrentando as grandes corporações nacionais e internacionais. Além de uma reforma na legislação para fortalecer a comunicação alternativa e combater os monopólios comunicacionais, nesse período, por incentivo ou iniciativa do governo, surgiram mais de 200 rádios comunitárias, 50 canais de TV organizados pelas comunidades, cerca de 300 jornais populares e dois grandes jornais de distribuição gratuita, o “Ciudad Caracas”, na capital, e o “Correo del Orinoco”, com circulação nacional.

Uma dessas experiências surgidas nesse período foi a que me levou até a Venezuela. A “Ávila TV” é um canal com linguagem jovem que em sua sede também funciona uma escola de audiovisual. Foi para fazer o curso da “Escuela de Medios y Producción Audiovisual – EMPA” que, em 2009, me mudei para Caracas. Ali, tive a oportunidade de estudar com profissionais venezuelanos e cubanos e, também, ver de perto as transformações porque passava o país vizinho. Um povo que se apossou da sua Constituição, conhecia profundamente as suas leis e que entendeu que a comunicação pode e deve ser feita por todos e não estar concentrada nas mãos de alguns.

Esse contexto se expressa diretamente na criação da teleSUR. O canal idealizado por Fidel Castro e Hugo Chávez nasce como uma iniciativa dos governos da Venezuela, Cuba, Argentina e Uruguai e, mais tarde, Bolívia, Equador e Nicarágua aderiram ao projeto. Países que, assim como na Venezuela, seus governantes entenderam a importância da disputa do discurso contra os grandes conglomerados da comunicação. Infelizmente, nessa importante batalha, o Brasil ficou de fora. O conteúdo do novo “sinal informativo da América Latina” só vai chegar em território brasileiro através de uma parceria com o governo Requião (Roberto Requião, governador do Paraná, 2003-2010) para a produção de um telejornal de segunda a sexta exibido pela TV Paraná.

Foi para integrar a redação em português que, em 2010, eu comecei a trabalhar na teleSUR. Vinda de um país em que os meios de comunicação se apresentam como o reflexo direto da realidade foi surpreendente ver que no nosso vizinho os veículos expressavam mais abertamente o seu posicionamento. Como redatora e, mais tarde, como apresentadora e editora dessa equipe foi possível perceber que os profissionais do canal sempre deixaram claro para quem estavam falando.

O canal idealizado por Fidel Castro e Hugo Chávez nasce como uma iniciativa dos governos da Venezuela, Cuba, Argentina e Uruguai e, mais tarde, Bolívia, Equador e Nicarágua aderiram ao projeto.

Para a teleSUR, os protagonistas das notícias são aqueles que defendem a soberania dos povos, os que lutam e resistem às políticas imperialistas de intervenção em outros países, são os que combatem as desigualdades sociais. Para além de divulgar esse processo de integração latino-americana, ela surge como ferramenta para fazer a disputa ideológica, para além das fronteiras da América Latina, com os grandes meios de comunicação que, de forma sistemática, difundem informações distorcidas ou simplesmente ignoram muitos dos acontecimentos na região.

Uma disputa de “norte” versus “sul”, em que o “norte” seriam os países, governos ou indivíduos neoliberais, imperialistas e desagregadores, que agem conforme seus interesses, colocando a vontade do indivíduo acima do coletivo. Já o “sul” é o oposto, são os que defendem a integração e a soberania dos povos, são anti-imperialistas, defensores do meio ambiente e dos direitos humanos. Ambos em constante transformação pois, como afirma o manual de princípios e valores jornalísticos da teleSUR, “também existe “um sul” nos países do norte, onde se encontram amplos setores sociais em situação de pobreza, e existe “um norte” nos países do sul, com setores enriquecidos e hegemônicos, enquanto a maioria da população apenas subsiste, excluída dos benefícios da sociedade”.

Concepção que fica evidente nas suas reportagens pois, ainda que se apresente desde um ponto de vista latino-americano, o “sul” que norteia a programação da teleSUR é muito mais amplo. É graças a essa postura de se posicionar claramente que, durante as últimas duas décadas, o canal nos brindou com coberturas jornalísticas importantíssimas pois assumiu a responsabilidade de disputar com esse “norte” o discurso sobre os acontecimentos que envolvem o nosso povo.

Reprodução

Foi pelas lentes da teleSUR que acompanhamos em tempo real o golpe de Estado em Honduras em 2009 – enquanto a mídia tradicional chamava o que estava acontecendo de “sucessão forçada” –, foi a sua equipe a primeira a chegar para cobrir o terremoto que devastou o Haiti em 2010, e foi a teleSUR que transmitiu ao vivo os momentos do sequestro do então presidente equatoriano, Rafael Correa, por membros da oposição. Ela mostrou de perto as trocas humanitárias entre governo e guerrilha na Colômbia e, em seguida, as negociações que deram início ao processo de paz. A teleSUR deu visibilidade a luta dos povos em defesa dos territórios e de seus recursos naturais, como a água e o gás.

E, como este ‘”sul” é político, a teleSUR não se furtou de estar com a câmera em punho para mostrar o movimento dos indignados na Espanha, as ocupações de Wall Street daqueles que denunciavam a concentração de riquezas na mão de 1% da população mundial e em diversos conflitos, como o confronto entre as forças do governo e os rebeldes apoiados pela Otan na Líbia. Demonstrando que seu jornalismo está comprometido com as causas justas, denunciou cada ataque de Israel contra os palestinos e divulgou a resistência de um povo que luta há anos contra um dos maiores arsenais do mundo. E, quando o mundo viu uma nova guerra se iniciar, ela apresentou um relato do que acontecia entre Rússia e Ucrânia.

Nesses 20 anos, a teleSUR vem traçando uma nova linha do equador fazendo comunicação com um olhar do “sul” para o “sul”. Um “sul” que, mais do que uma coordenada, é um conceito. É América Latina, mas também é palestino, é indignado, é imigrante, é ambientalista, é 99%, é povo, é luta. São 20 anos de disputa contra-hegemônica contra um “norte” que insiste em tentar nos subjugar, mas, como diz os versos da canção Latinoamérica, “este povo não se afoga com as marés” pois “aqui se respira luta”. Viva a América Latina unida, viva a teleSUR!

Reprodução

Quer saber mais sobre a história da teleSUR?

Assista a reportagem do Nossa América sobre os 10 anos do canal: https://www.tvmovimento.tv.br/artigo/os–10-anos-da-telesur

Acesse o link para baixar o livro comemorativo dos 20 anos da teleSUR: “El ojo de América em el Mundo”: 20 años de periodismo combativo: https://www.telesurtv.net/ediciones-telesur/

  • É jornalista, de 2010 a 2013 trabalhou na teleSUR onde atuou como redatora, apresentadora e editora.