Generic selectors
Somente resultados exatos
Pesquisar no título
Pesquisar no conteúdo
Post Type Selectors
"><font style="vertical-align: inherit

Fascismo, eugenia e a construção histórica da exclusão racial no Brasil

O fascismo que ganhou força na década de 1930 na Europa não deve ser entendido apenas como um fenômeno localizado na Itália ou na Alemanha. Ele representou uma forma de organização social baseada na hierarquização de grupos humanos e na construção de inimigos internos considerados obstáculos ao projeto de nação. Essa lógica ultrapassou fronteiras e influenciou debates políticos e intelectuais em diversos países, com grande expressão no Brasil.1

Aqui a abolição da escravidão em 1888, libertou juridicamente milhões de pessoas sem que o Estado criasse políticas capazes de garantir inclusão econômica, educacional ou cidadania plena. A ausência de políticas de reparação produziu uma sociedade profundamente desigual, na qual a população negra permaneceu marginalizada nos espaços de poder, no acesso à educação e nas oportunidades de trabalho. Esse cenário é consequência de ideias raciais hierarquizantes que ganharam força entre setores das elites políticas e intelectuais no início do século XX.

O projeto de modernização urbana das primeiras décadas da República é um exemplo revelador desse processo. A reforma conduzida por Pereira Passos no Rio de Janeiro buscava transformar a capital em uma cidade inspirada nos modelos europeus, especialmente franceses. A abertura de avenidas, a destruição de cortiços e a construção de edifícios monumentais simbolizavam o ideal de civilização que as elites desejavam projetar. Entretanto, milhares de trabalhadores pobres — majoritariamente negros — foram expulsos das regiões centrais da cidade e deslocados para áreas periféricas.2

Paralelamente a esse processo urbano, ganhou força no país o pensamento eugenista. A eugenia defendia a ideia de que o progresso nacional dependeria do aperfeiçoamento biológico da população. Intelectuais e médicos brasileiros passaram a difundir a noção de que seria necessário estimular determinados padrões raciais considerados superiores e limitar a reprodução daqueles vistos como degenerados.3

Essas concepções chegaram a influenciar a própria legislação brasileira. A Constituição de 1934 mencionava a necessidade de incentivo à educação eugênica, evidenciando o grau de influência dessas ideias no pensamento institucional do período. Embora hoje essa formulação seja amplamente criticada, ela revela como teorias raciais foram incorporadas ao debate sobre políticas públicas e formação da sociedade brasileira.4

No campo da criminologia, as teorias de Cesare Lombroso também exerceram forte influência. Lombroso defendia a existência do chamado criminoso nato, identificável por características físicas e biológicas. Ainda que posteriormente desacreditadas pela ciência, essas ideias contribuíram para consolidar a associação entre criminalidade e determinados grupos sociais, especialmente os negros.5

Essa herança histórica ajuda a explicar padrões que persistem no Brasil contemporâneo. Dados recentes indicam que cerca de 69% da população carcerária brasileira é composta por pessoas negras. O número revela uma forte seletividade racial no funcionamento do sistema penal, no qual determinados grupos sociais são muito mais frequentemente alvo de abordagens policiais, processos criminais e encarceramento.6

A violência letal também apresenta forte desigualdade racial. Estudos mostram que aproximadamente 78% das vítimas de homicídio no país são negras. Esse dado revela que jovens negros, sobretudo aqueles que vivem em periferias urbanas, estão expostos a níveis muito mais elevados de violência do que outros grupos sociais.7

As operações policiais realizadas em favelas e bairros populares, especialmente em estados como o Rio de Janeiro, ilustram esse quadro. Em diversos episódios recentes, ações policiais resultaram em números extremamente elevados de mortos. Ainda que justificadas como parte do combate ao crime organizado, essas operações atingem predominantemente territórios habitados por populações negras, reforçando a percepção de que determinadas vidas são tratadas como descartáveis pelo próprio Estado.

Enfrentar o fascismo contemporâneo exige compreender suas raízes históricas e suas formas atuais de manifestação. Ele não aparece apenas como regime político explícito, mas também como lógica social que naturaliza desigualdades profundas e legitima a violência contra determinados grupos

Apesar desse cenário, a história brasileira também é marcada por resistência. Movimentos negros, organizações populares e coletivos antifascistas têm desempenhado papel fundamental na denúncia do racismo estrutural e na construção de alternativas políticas. A luta por igualdade racial no Brasil conecta-se a uma tradição internacional de resistência que inclui experiências como a organização dos Panteras Negras nos Estados Unidos, que combinaram mobilização política, organização comunitária e programas sociais voltados para populações marginalizadas.8

Enfrentar o fascismo contemporâneo exige compreender suas raízes históricas e suas formas atuais de manifestação. Ele não aparece apenas como regime político explícito, mas também como lógica social que naturaliza desigualdades profundas e legitima a violência contra determinados grupos. Combater essa lógica significa defender um projeto de sociedade baseado na igualdade de direitos, na justiça social e no reconhecimento da dignidade de todas as vidas.

Nesse sentido, os encontros entre organizações políticas de cunho social e antifascista desempenham papel estratégico. Eles permitem articular diagnósticos comuns, fortalecer redes de solidariedade e construir agendas políticas capazes de enfrentar o racismo estrutural e o autoritarismo. Mais do que um exercício de memória histórica, trata-se de afirmar que a democracia só será plena quando for capaz de garantir igualdade real para todos os seus cidadãos.


  1. Paxton, Robert. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra. ↩︎
  2. Sevcenko, Nicolau. A Revolta da Vacina e a modernização do Rio de Janeiro.
    ↩︎
  3. Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. ↩︎
  4. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934. ↩︎
  5. Lombroso, Cesare. O Homem Delinquente.
    ↩︎
  6. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. ↩︎
  7. IPEA. Atlas da Violência. ↩︎
  8. Newton, Huey P.; Seale, Bobby. Documentos históricos do Black Panther Party.
    ↩︎

  • Professor de Sociologia; fundador do Movimento Policiais Antifascistas e Coordenador Geral da Federação dos Trabalhadores do Estado da Bahia (FETRAB); Segundo colocado para Prefeito de Salvador em 2024.