Um barril de petróleo possui energia potencial suficiente para realizar aproximadamente quatro anos e meio de trabalho de um brasileiro saudável. Sem a exploração do trabalho humano e a instrumentalização de uma natureza barata — ou, sendo mais claro, sem escravização, trabalho servil ou assalariado — e sem a conversão de territórios inteiros em zonas de sacrifício, o capitalismo jamais teria naturalizado a ideia de que o crescimento econômico é uma premissa, nem teria alcançado qualquer um de seus grandes feitos.
Esse é um fato frequentemente ignorado — ou simplesmente não percebido — pelos arautos da “inteligência econômica”. No entanto, esse dado coloca em segundo plano qualquer suposta grande virtude do capitalismo ou invenção tecnológica como fator central para explicar a única fase documentada de crescimento econômico exponencial da história humana.
Resultado de uma combinação de fatores — limites sociais, ecológicos e a crescente escassez relativa de recursos — essa era está em seus episódios finais. Mesmo sem plena consciência teórica desses processos, há um líder mundial, ou melhor, um presidente neofascista chamado Donald Trump, que, junto de sua coalizão de extrema direita, percebeu duas coisas: foram essas condições históricas de dominação de recursos que possibilitaram aos Estados Unidos ocupar o posto de país central no sistema-mundial capitalista, e que energia é poder. A conclusão foi clara e catastrófica: seria preciso recuperar o domínio energético mundial estadunidense.
Extrema direita e energias extremas
Costumamos esquecer que a história econômica é, antes de tudo, história ambiental. A Inglaterra não teria dominado o planeta por um período — tornando-se central no atual sistema-mundial — se não tivesse dominado a energia que movia seus teares: o carvão, que nada mais é do que uma floresta subterrânea fossilizada há milhões de anos.
A maior potência imperial da história, os Estados Unidos, também moldou o mundo com as marcas do capital fóssil: fotossíntese passada em forma de petróleo. A crise do petróleo — que se consolidou com o fim dos preços artificialmente baixos de cerca de US$2 por barril saudita (pasmem: quase quatro anos de trabalho humano condensados em forma de petróleo por apenas dois dólares!) — também marcou o fim de sua hegemonia petrolífera. Em outras palavras, em meados dos anos 1970 os Estados Unidos deixam de ser o maior produtor de petróleo do mundo justamente no momento em que começa a se delinear o processo de esgotamento da era da Energia barata.1

Foi somente com o avanço tecnológico, com o negacionismo climático e com a eleição de Donald Trump como presidente que os Estados Unidos recuperaram o posto de maior produtor de petróleo do mundo. As mais agressivas técnicas de extração passaram a ser empregadas na tentativa de restabelecer o domínio energético global de um país cuja hegemonia já se encontrava ameaçada. O fraturamento hidráulico (fracking), utilizado na exploração do petróleo de xisto, esteve no centro desse processo. Nesse contexto de ascensão das chamadas energias extremas — fontes cuja extração envolve enormes riscos geológicos, ambientais, laborais e sociais — foi possível que, em 2018, o país voltasse a ocupar a liderança mundial na produção de petróleo.
Um barril de petróleo possui energia potencial suficiente para realizar aproximadamente quatro anos e meio de trabalho de um brasileiro
Como sabemos, porém, há diferentes tipos de petróleo, destinados a usos distintos, e os Estados Unidos não são dominantes em todos eles. Por diversos fatores, também sabemos que o petróleo pesado tem se tornado cada vez mais escasso e caro no sistema-mundo. Seus derivados são centrais para qualquer país que postule ocupar um lugar de destaque no modelo capitalista de sociedade. Assim, a combinação entre limites ecológicos e disputa de hegemonia ajuda a compreender a conjuntura atual.2
Pico do Petróleo, escassez de recursos e ofensiva contra Irã e Venezuela
Em meados do século passado, alguns teóricos e cientistas apontaram que certos recursos essenciais para a civilização industrial entrariam em escassez absoluta ou relativa. Assim, recursos fundamentais seguiriam uma curva de pico, na qual a produção de um insumo — como o petróleo, por exemplo — atinge um máximo histórico para depois entrar em um declínio inevitável.
Embora tenham ganhado alguma notoriedade durante a crise do petróleo, essa tese acabou sendo amplamente descredibilizada. O mais impressionante é que, pelo menos de forma relativa, a escassez de recursos tem se tornado cada vez mais evidente, tornando-se o pano de fundo da atual crise geopolítica que pode levar a uma Terceira Guerra Mundial.3
Nessa conjuntura, o viés neofascista de Donald Trump tem se intensificado, e suas arbitrariedades e crimes de guerra contra o Irã e a Venezuela possuem, entre outros fatores, um elemento em comum: o petróleo pesado.

Como previsto pelos teóricos dos picos, os melhores e mais rentáveis poços de petróleo pesado do mundo — ao menos sob o aspecto da relação entre investimento e retorno — têm se tornado cada vez mais escassos. Isso ajuda a explicar por que países com grandes reservas desse tipo de recurso se tornaram alvos constantes de sanções, pressões geopolíticas e intervenções indiretas.
Os tipos mais pesados de petróleo são particularmente importantes para a produção de derivados utilizados na indústria pesada, no transporte marítimo e no asfaltamento. Pode-se dizer que existe certa abundância relativa em derivados mais leves do petróleo, como a gasolina. A situação, porém, é bastante diferente quando se trata do diesel e de outros derivados mais pesados, fundamentais para o funcionamento da economia material global.
Dessa forma, em um cenário de escassez gradual, torna-se estratégico limitar o acesso da China a duas importantes fontes de petróleo bruto do mundo: o Irã e, especialmente, a Venezuela. Ambos são grandes fornecedores de petróleo pesado e, nos últimos anos, tornaram-se fontes relevantes de petróleo para refinarias chinesas.
Estimativas indicam que a China importa grandes volumes de petróleo desses países — cerca de 1,38 milhão de barris por dia do Irã e centenas de milhares de barris da Venezuela — o que os torna peças importantes em sua estratégia energética.
Vale lembrar que o gigante asiático, que hoje disputa a hegemonia do sistema-mundo capitalista com os Estados Unidos, é também o país que mais constrói infraestrutura no planeta. Por isso, sua demanda por derivados pesados do petróleo — como aqueles utilizados na pavimentação e na construção — permanece estruturalmente elevada.
Essas, por si só, já são razões para entender que a fase de acumulação infinita do capital — expressa em um crescimento econômico contínuo e relativamente estável — está se encerrando. Ao mesmo tempo, se analisarmos as pressões extrativistas em busca de grãos e minerais críticos sobre as três maiores florestas tropicais do mundo (Amazônia, Congo e Indonésia) e sobre diversos países do Sul Global, encontramos um cenário ainda mais alarmante.
Pode-se somar a esse quadro o iminente pico do cobre. Esse material é essencial para a eletrificação, Data Centers, para a indústria da guerra e para a suposta transição energética — todos nichos econômicos atualmente em aquecimento.
No entanto, cresce também a resistência da sociedade civil contra projetos extrativistas e contra a ultraexploração da força de trabalho. O colapso parece iminente e tem sido acelerado pelo neofascismo, que, no contexto do sistema-mundo capitalista, acentua o nacionalismo, reduz a cooperação internacional e arrasta à direita até mesmo os programas da esquerda hegemônica ou governante em diversos países.
Se o Colapso é iminente resta saber de que tipo ele será.
Qual colapso queremos?
Todos esses problemas são exacerbados e acelerados pela ânsia do trumpismo em evitar a derrocada dos EUA. A investida de Donald Trump para recuperar o protagonismo na produção de petróleo não pode ocultar o fato de que a atmosfera já se encontra profundamente saturada de gases de efeito estufa e que a história econômica e ambiental em curso nos conduz, com grande probabilidade, a um cenário de 3°C de aquecimento ou mais. Esse nível de aquecimento poderá resultar em pelo menos 1 bilhão de mortes excedentes até 2100. Trata-se de um número superior ao de vítimas de qualquer guerra já registrada. É um dado que revela a emergência climática como uma verdadeira guerra de classe produzida pelo capitalismo.
Esse volume de 1 bilhão de mortes é certamente subestimado se considerarmos o número de conflitos bélicos que podem surgir em um contexto de — aí sim — escassez generalizada. Infelizmente, não parece haver, no momento, um projeto antagônico capaz de desmontar essa grande aceleração rumo ao colapso.
Precisaremos de um projeto que — a partir das ruínas do colapso capitalista — regenere o planeta e a humanidade, ao mesmo tempo em que derrote o imperialismo
A China já anunciou recuo em seu compromisso de redução de emissões, ao mesmo tempo em que – como já dito – representa uma das maiores pressões extrativistas sobre as três mais importantes florestas tropicais do planeta. Nada parece diminuir sua fome por grãos e metais críticos. Enquanto isso, países que poderiam liderar uma transição ampliam a fronteira extrativista contra biomas centrais para a regeneração planetária. É o caso do Brasil, com sua ânsia de expandir a exploração de petróleo na Amazônia.4
Toda essa conjuntura nos força a pensar para além dos paradigmas do século XX. Haverá, claro, a necessidade de revisitar aspectos importantes do desenvolvimentismo e do socialismo clássico — especialmente, neste último, a ideia de solidariedade internacional irrestrita. Porém, será preciso formular um projeto partindo da ideia de colapso: colocando no centro as resistências locais e solidárias que mantiveram povos de pé e que, até hoje, nos deixam um legado econômico, cultural e inspirador.
Da resistência indígena e camponesa, do Quilombismo aos túneis de Gaza, do cooperativismo inglês às irmandades negras brasileiras, passando pelas ações de ajuda mútua dos Panteras Negras e às indústrias recuperadas na Argentina, haverá que renascer uma alternativa civilizatória que venha debaixo e que cultive relações recíprocas com a natureza.
Em outras palavras, precisaremos de um projeto que — a partir das ruínas do colapso capitalista — regenere o planeta e a humanidade, ao mesmo tempo em que derrote o imperialismo. Essa é, sem dúvida, a maior tarefa da esquerda em toda a sua história.
- Sieferle, R. Peter. The Subterranean Forest – energy systems and the Industrial Revolution. White Horse Press. 2010 ↩︎
- Roa, Tatiana; Scandizzo, Hernán. Que entendemos por energia extrema. In: Extremas. Nuevas fronteras del extractivismo energético en Latinoamérica. Bogotá: Oilwatch Latinoamérica, 2017. ↩︎
- Dentre os Peaksters podemos citar M. King Hubbert, Donella Meadows e o atuante Richard Heinberg. ↩︎
- Cassella, Carly. Scientists warn 1 billion people on track to die from climate change. ScienceAlert, 30 ago. 2023 ↩︎
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Coordernador da Rede Livres, Militante Ecossocialista do Fortalecer o PSOL e doutorando em Economia Política Mundial (UFABC).






