A cena que inaugurou o semestre legislativo em Brasília foi tão simbólica quanto preocupante: congressistas bolsonaristas ocuparam o plenário da Câmara dos Deputados e impediram a reabertura dos trabalhos parlamentares. O Brasil assistiu a uma demonstração de força de um setor que, mais uma vez, se vale da estrutura institucional para tentar deslegitimá-la por dentro.
Longe de ser um gesto isolado, essa ação está ligada à escalada bolsonarista contra o STF, especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes. No fim de semana anterior, vimos manifestações com discursos agressivos contra o Supremo, em um momento em que o próprio Bolsonaro apareceu em público descumprindo as medidas cautelares impostas a ele. A provocação não era sutil e o objetivo era claro: forçar uma reação institucional que pudesse ser utilizada politicamente como “perseguição”, “exagero” ou “censura”.
A resposta veio com a decretação da prisão domiciliar de Bolsonaro. E foi a partir dela que se desencadeou o novo movimento: congressistas partem para o enfrentamento direto com o Congresso e reforçam a ofensiva contra o STF. O que estamos vendo é o bolsonarismo reabrir o processo do golpe, num momento em que ele parecia caminhar para um desfecho jurídico com a inelegibilidade e prisão do ex-presidente.
Diante do enfraquecimento das alternativas institucionais, [a extrema direita] volta-se para aquilo que conhece bem: o caos.
Essa nova fase do golpismo tem uma tática distinta. Ao contrário do que se viu em 2018, e mesmo em 2022, o grupo abandona a disputa eleitoral como eixo central de seu projeto político. Não por escolha estratégica, mas por inviabilidade. As alternativas para a extrema direita foram desidratadas por dentro do próprio campo bolsonarista. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, é constantemente sabotado por setores mais radicais por representar uma moderação tática e uma aliança com os setores da direita que ainda preservam algum compromisso institucional. Já Eduardo Bolsonaro, isolado nos Estados Unidos e articulando contra o Brasil em ambientes de ultradireita internacional, isola o bolsonarismo e se distancia cada vez mais da viabilidade eleitoral.

Diante do enfraquecimento de suas alternativas institucionais, volta-se para aquilo que conhece bem: o caos. Provocar o STF, insuflar sua base, colocar militantes nas ruas, tensionar as instituições e buscar respaldo internacional — especialmente de figuras da direita americana que compartilham da mesma lógica antidemocrática. É o roteiro já conhecido, mas com roupagens para o cenário atual.
A ocupação do Congresso e a radicalização contra o STF, somadas ao tarifaço, fazem parte de uma mesma estratégia: desestabilizar o país para, no meio do conflito, apresentar-se novamente como solução. É a velha tática do incendiário que tenta posar de bombeiro. A tentativa de obstruir o Legislativo visa um objetivo político claro, isto é, reforçar a narrativa de que o sistema está falido, corrompido e que apenas um rompimento constitucional poderia “salvá-lo”.
Não se combate o autoritarismo com vacilação. Não se derrota o golpismo com tibieza. A democracia brasileira já resistiu a muitas tempestades, mas nenhuma resistência é eterna sem ação.
O problema, para os bolsonaristas, é que o Brasil de 2025 não é o mesmo de 2018. Lula voltou ao poder, com um governo que, apesar das contradições e limitações, apresenta avanços. Por exemplo, a inflação sob controle, o desemprego em queda, o aumento do salário-mínimo, a retomada de programas sociais, o crescimento da renda média e uma melhora nos índices de confiança. Há também um esforço de recompor as relações institucionais e promover uma política externa respeitada.
Além disso, o apoio das massas bolsonaristas já não tem o mesmo fôlego. A adesão popular às pautas de extrema direita está mais limitada e menos articulada. As ruas não respondem com a mesma intensidade. A mobilização está longe de reproduzir a força que teve nos atos de 7 de setembro dos últimos anos, ou nas manifestações pós-eleições de 2022. Há cansaço, há divisão, há medo da radicalização e há também o reconhecimento, silencioso, mas presente, de que o projeto bolsonarista, quando no poder, fracassou em oferecer um horizonte de estabilidade e desenvolvimento.
Outro elemento que compõe o enfraquecimento do bolsonarismo é a mudança de posição de setores da elite econômica. Empresários, banqueiros, executivos do agronegócio e mesmo setores da indústria, que em outros momentos flertaram ou apoiaram abertamente Bolsonaro, hoje assumem posturas mais pragmáticas. A tensão constante com o STF, o alinhamento com os EUA e a instabilidade política provocada pelos bolsonaristas comprometem interesses econômicos que demandam previsibilidade. A adesão ao golpismo já não compensa os riscos que ele acarreta.
O cenário internacional também se transformou. Os EUA tentam retomar a liderança do comércio mundial atacando os BRICS, o que causa desgaste interno para o trumpismo que vem perdendo apoio popular e dá sinais de que a extrema direita global, embora ainda viva, pode esbarrar no fortalecimento do “sul global”. A articulação de Eduardo Bolsonaro no exterior, incluindo tentativas de influenciar conservadores e figuras do trumpismo, tem sido ineficaz para transformar essa aliança em capital político no Brasil.
Ainda assim, é fundamental não subestimar a capacidade de mobilização, articulação, que o bolsonarismo mantém. Eles estão em cargos estratégicos, controlam bancadas influentes, têm presença no Judiciário, nas polícias militares e, em menor grau, nas Forças Armadas. Além disso, sua base continua ativa nas redes sociais, fomentando teorias conspiratórias, ataques às instituições e ameaças à democracia. A prisão domiciliar de Bolsonaro, por exemplo, será usada como combustível para alimentar uma narrativa de mártir político perseguido por um sistema corrupto.
Por tudo isso, é urgente que os setores democráticos compreendam que o que está em curso é mais um capítulo da tentativa de desestabilização do Estado Democrático de Direito, promovida por um grupo que, ao perder nas urnas, decidiu apostar na ruptura como caminho de retorno ao poder.
É preciso dizer com todas as letras: ocupar o Congresso para impedir seu funcionamento, atacar sistematicamente o Supremo Tribunal Federal, organizar articulações internacionais para sabotar a soberania nacional são ações golpistas.
Cabe aos democratas redobrarem o compromisso com a defesa firme da democracia. Isso exige coragem institucional, articulação política, presença popular. Não se combate o autoritarismo com vacilação. Não se derrota o golpismo com tibieza. A democracia brasileira já resistiu a muitas tempestades, mas nenhuma resistência é eterna sem ação.
Foto principal: Matina Ramos / Câmara dos Deputados
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Professor de Sociologia; fundador do Movimento Policiais Antifascistas e Coordenador Geral da Federação dos Trabalhadores do Estado da Bahia (FETRAB); Segundo colocado para Prefeito de Salvador em 2024.





