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A Máquina de Coisificação: Neuropsicologia Crítica e a Luta contra a Barbárie Patriarcal

A compreensão do feminicídio e da violência vicária exige que abandonemos as explicações moralistas e psicologizantes que tratam o agressor como um “monstro” isolado. Para a militância revolucionária, é preciso enxergar o crime como a materialização de uma estrutura de posse que opera tanto na economia política quanto na arquitetura da psique humana. Quando um homem extermina os filhos para destruir a mãe, ele está operando sob a lógica mais pura da reificação (Verdinglichung), conceito central em György Lukács. A reificação é o processo pelo qual as relações entre pessoas assumem o caráter de relações entre coisas; sob o patriarcado, a mulher é destituída de sua subjetividade e transformada em um “objeto de uso” ou “patrimônio afetivo”. Se o objeto exerce o que definimos como Poder de Escolha Consciente — a capacidade de romper vínculos e afirmar sua autonomia —, o sistema de posse entra em colapso e o agressor recorre à liquidação do “bem” para restaurar sua percepção de controle.

O problema da mercadoria não é “[…] um problema particular, nem mesmo apenas o problema central da economia entendida como ciência especial, mas o problema estrutural central da sociedade capitalista em todas as suas manifestações de vida. Pois apenas nesse caso pode-se encontrar na estrutura da relação mercantil o protótipo de todas as formas de objetividade e de todas as formas correspondentes de subjetividade na sociedade burguesa.” (LUKÁCS, 2003, p. 193)

Essa desumanização não é apenas um discurso, mas uma falência cognitiva produzida deliberadamente. Através da lente da Psicologia Social e da Neuropsicologia Crítica, podemos observar que o patriarcado atua como um sabotador do desenvolvimento da Teoria da Mente nos homens. A Teoria da Mente é a capacidade neurológica de simular e compreender que o “Outro” possui um universo interno independente, com desejos e vontades próprias. Contudo, a socialização masculina capitalista ensina o oposto: a mulher é vista como uma extensão do ego masculino. Pesquisas em Cognição Social, como as de Susan Fiske, indicam que, ao percebermos alguém como uma “coisa”, ocorre uma subativação do Córtex Pré-Frontal Medial, a área do cérebro responsável pela empatia.

Quando as pessoas são vistas como carentes de poder de escolha consciente “ou calor humano, o córtex pré-frontal medial — a área do cérebro tipicamente ativada durante a interação social — muitas vezes falha em responder. Elas são processadas, em termos neurais, mais como objetos do que como seres humanos.” (FISKE, 2011, tradução livre).

O patriarcado, portanto, produz homens que são neurologicamente treinados para a cegueira diante da alteridade. Eles não “perdem a cabeça”; eles agem de acordo com um esquema cognitivo onde a dor da mulher não é processada como sofrimento humano, mas como um defeito técnico na mercadoria que ele acredita possuir.

Essa estrutura se torna ainda mais perversa na violência vicária, onde os filhos são utilizados como instrumentos de tortura. Aqui, a análise marxista da propriedade privada é fundamental: os filhos são tratados como “frutos do patrimônio”. O assassinato de crianças pelo pai não é um ato de loucura, mas uma estratégia deliberada de aniquilação simbólica da mulher. É importante compreendermos que a Consciência — definida como o conjunto de atividades mentais onde ideias racionais se sobrepõem às emoções — é negada a esse homem, que é incentivado a deixar que a emoção primitiva da posse se sobreponha a qualquer conexão racional de preservação da vida. O feminicida acredita que está “Retomando o Controle” através da violência, quando na verdade está apenas cumprindo o papel de carrasco de um sistema que o infantiliza emocionalmente para torná-lo um soldado da ordem patriarcal.

O suporte social a essa barbárie manifesta-se no linchamento virtual e na vigilância moralista que hostiliza a vítima até mesmo em seu luto. O argumento da “falsa simetria” — a ideia de que “homens e mulheres erram” e que a conduta dela justificaria a fúria dele — é a ferramenta de desengajamento moral, onde a autossanção pode ser desvinculada da conduta desumana por meio da reconstrução moral do comportamento. “Por meio da justificativa moral, o comportamento prejudicial é tornado pessoal e socialmente aceitável ao ser apresentado como servindo a propósitos sociais ou morais dignos.” (BANDURA, 2016, tradução livre).

Ao focarem na fidelidade feminina em vez de focarem no infanticídio, páginas de exposição e comentaristas digitais tornam-se cúmplices da lógica de posse. Eles agem como auditores de uma mercadoria: se a mulher não foi “fiel” ao contrato de submissão, ela perde o direito à compaixão e à privacidade.

Para nós, socialistas, a luta não é apenas por leis mais severas, mas pela emancipação total da subjetividade feminina das amarras da propriedade privada. Precisamos construir uma educação que ensine a alteridade e que defenda o Poder de Escolha Consciente como um direito inalienável, e não como uma afronta. Somente ao retomar o controle de nossas narrativas e corpos poderemos enfrentar essa neurose social que transforma o afeto em um campo de extermínio.

É imperativo que compreendamos que não há solução definitiva para a violência contra a mulher nos marcos da sociedade burguesa. Enquanto o lucro for o motor do mundo, a reificação será sua ferramenta de controle. A lógica que transforma o

trabalho em mercadoria é a mesma que transforma o corpo feminino em propriedade privada. Portanto, a luta pela preservação da vida das mulheres é rigorosamente indissociável da luta pela derrubada do capitalismo.

O patriarcado não é um “anexo” do capital, mas o seu solo fértil. Sob o modo de produção atual, a subjetividade masculina é forjada para ser a primeira linha de defesa da propriedade privada dentro do lar. Como vimos, essa arquitetura psíquica atrofia a Consciência — impedindo que a conexão de ideias racionais se sobreponha às pulsões de domínio e emoções primitivas de posse. Enquanto vivermos sob uma estrutura que premia a acumulação e o controle, o homem continuará a ser educado para ver o Poder de Escolha Consciente da mulher como uma “quebra de contrato” passível de liquidação.

A verdadeira emancipação exige um novo modo de produção da vida. Somente em uma sociedade que não se organize em torno da mercadoria, mas em torno das necessidades humanas, será possível reconstruir as bases da cognição e do afeto. Uma sociedade onde a alteridade não seja uma ameaça, mas o fundamento do coletivo. É apenas na superação revolucionária que poderemos, coletivamente, retomar o leme de nossa história, garantindo que o nascimento de uma mulher não seja mais o início de uma contagem regressiva para a violência. Nossa luta é pelo socialismo, pois ele é a única barreira real entre a civilização e a barbárie que hoje assistimos nos velórios e nos tribunais das redes sociais.

Venceremos, pois nossa vida não é negociável!

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Referências

BANDURA, Albert. Moral Disengagement: how people do harm and live with themselves. New York: Worth Publishers, 2016.

FISKE, Susan T. Envy up, scorn down: how status divides us. New York: Russell Sage Foundation, 2011.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

LUKÁCS, György. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. Tradução de Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

STARK, Evan. Coercive Control: how men entrap women in personal life. Oxford: Oxford University Press, 2007. YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do esquema: guia do terapeuta. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2003.

  • Formada em História, Doutora em Educação e militante do Fortalecer.