A crise do capital e a face reacionária
O ressurgimento da extrema direita global no século XXI não deve ser interpretado como um “surto irracional” ou um desvio acidental da história. Recuperando a perspectiva de György Lukács (2020) em A Destruição da Razão, compreendemos que o irracionalismo político é a resposta ideológica da burguesia em momentos de crise profunda de sua hegemonia. Como aponta o autor, em contextos de decadência ideológica, a classe dominante renuncia à razão em favor de mitos reacionários para preservar o status quo. Quando o capital enfrenta quedas na taxa de lucro e limites de expansão, ele abandona a máscara da democracia liberal e recorre a métodos autocráticos para garantir a acumulação.
A tese central deste artigo é que o fascismo contemporâneo e a extrema direita não são apenas movimentos de “ódio”, mas necessidades estruturais para reorganizar a reprodução social. Diante da implementação de ajustes neoliberais severos, o capital precisa reduzir custos estatais. Para isso, utiliza a ideologia reacionária para repassar a responsabilidade do cuidado, com saúde, educação e assistência, integralmente para o interior das famílias.
Quando governos de extrema direita implementam políticas de austeridade neoliberal, cortando verbas de creches, hospitais, cozinhas comunitárias e assistência social, eles geram um vácuo que precisa ser preenchido para evitar o colapso social
Nesse cenário, a opressão de gênero torna-se um pilar econômico. Como afirma Heleieth Saffioti (2013, p. 117), no qual “o capitalismo não poderia sobreviver sem a contribuição gratuita ou barata das mulheres”, o que evidencia que a “família tradicional” é a unidade básica onde o capital externaliza seus custos. Portanto, a perspectiva marxiana nos ensina que a emancipação humana é indissociável da superação da propriedade privada. Afinal, enquanto subsistir a lógica da mercadoria, o corpo feminino será tratado como um recurso a ser disciplinado pelo Estado para a manutenção do exército industrial de reserva e da ordem burguesa.
Relação entre produção e reprodução
Para compreender a natureza da ofensiva contemporânea da extrema direita, é imperativo expandir a categoria marxiana de “unidade produtiva”. A tradição do feminismo marxista, consolidada por autoras como Silvia Federici e Lise Vogel, demonstra que o modo de produção capitalista não se encerra nos muros da fábrica ou nos escritórios; ele possui um “andar de baixo” invisibilizado, mas estruturante: o lar. Como afirma Federici (2017, p. 23) em sua obra seminal Calibã e a Bruxa, “o corpo feminino foi transformado numa ferramenta de trabalho para a reprodução da força de trabalho e a expansão do mercado”. Esta percepção revela que a exploração do proletariado depende visceralmente da expropriação do trabalho reprodutivo das mulheres.
Nesse sentido, em Marxism and the Oppression of Women, Lise Vogel contribui para este debate ao sistematizar a Teoria da Reprodução Social (TRS), argumentando que a força de trabalho não é uma mercadoria qualquer, ela precisa ser diariamente produzida e geracionalmente substituída. Portanto, esse processo, que envolve desde a alimentação e o vestuário até o suporte emocional e a socialização de novos trabalhadores, é realizado majoritariamente por mulheres sem qualquer remuneração e na lógica do capital, esse trabalho é tratado como um “recurso natural” inesgotável e gratuito. Entretanto, em períodos de crise estrutural, o capital exige que essa exploração se intensifique para compensar a queda nos investimentos públicos em serviços sociais.
A luta pela reprodução social não é uma pauta secundária, é o embate fundamental contra a ofensiva do capital em transformar a vida humana em pura mercadoria a serviço da acumulação
Nesse cenário, a violência fascista e a retórica da “família tradicional” atuam como uma tecnologia de disciplina biopolítica. Não se trata apenas de uma pauta moral conservadora, mas de uma estratégia econômica deliberada. Quando governos de extrema direita implementam políticas de austeridade neoliberal, cortando verbas de creches, hospitais, cozinhas comunitárias e assistência social, eles geram um vácuo que precisa ser preenchido para evitar o colapso social. A ideologia dominante reacionária intervém para naturalizar esse encargo, convencendo a mulher de que o cuidado é uma “missão biológica” ou um “dever espiritual”.
O fascismo utiliza o medo e a repressão para garantir que a mulher permaneça confinada a essa esfera privada. Como observa Federici (2017), a disciplina do corpo feminino é o “fundamento da disciplina social”. Assim, ao atacar a autonomia das mulheres, a extrema direita assegura que o Estado possa se desvincular de suas obrigações sociais, transferindo o custo da crise para as costas das trabalhadoras. Portanto, a luta pela reprodução social não é uma pauta secundária, é o embate fundamental contra a ofensiva do capital em transformar a vida humana em pura mercadoria a serviço da acumulação.
O fascismo e a ofensiva contra o corpo
A ofensiva da extrema direita contra a autonomia das mulheres e os direitos reprodutivos, materializada no ataque sistemático ao aborto legal, à educação sexual e aos métodos contraceptivos, longe de ser um mero resquício de moralidade arcaica, configura-se como uma tecnologia biopolítica de controle populacional. Sob essa perspectiva, o útero feminino é apreendido pela lógica do capital como uma ‘fábrica de trabalhadores’. Nesse sentido, o fascismo, em sua essência, busca o controle total da demografia não apenas para garantir um exército industrial de reserva abundante e precário, mas também para fornecer a ‘bucha de canhão’ necessária às aventuras militaristas e à expansão nacionalista. Depreende-se, portanto, que o controle do corpo feminino constitui, em última instância, o controle da própria escala de produção da mercadoria força de trabalho.

Nesse contexto, a chamada “pauta de costumes” e o pânico moral em torno da “ideologia de gênero” operam como uma cortina de fumaça ideológica e uma ferramenta de desarticulação política. Ao demonizar o feminismo e as dissidências sexuais, a extrema direita isola as mulheres e fragmenta a unidade da classe trabalhadora. Heleieth Saffioti, em sua análise sobre a realidade brasileira, destaca a simbiose entre capitalismo, racismo e patriarcado. Para a autora, essas opressões não são camadas sobrepostas, mas um “nó” sistêmico e contraditório, asseverando que “o capitalismo se nutre da desigualdade de gênero para baratear a força de trabalho feminina e da desigualdade racial para superexplorar os corpos negros” (2013, p. 122).
O ataque ao gênero, portanto, visa restaurar uma hierarquia rígida que facilite a exploração econômica. Ao instituir o homem como “chefe de família” e a mulher como sua dependente e cuidadora, o fascismo reforça a estrutura de autoridade necessária para a disciplina proletária e social. Além disso, essa ofensiva tem um caráter profundamente racista. No Brasil, a violência fascista do Estado e do capital incide de forma letal sobre as mulheres negras, que ocupam a base da pirâmide social e são as principais vítimas da precariedade laboral e da violência institucional.
Nessa perspectiva, como observa Saffioti, o patriarcado e o racismo são “engrenagens” que permitem ao capital extrair mais-valia em níveis que a exploração puramente de classe não alcançaria sozinha. A extrema direita, ao criminalizar o corpo e a identidade, tenta impedir que a luta das mulheres se conecte com a luta geral contra o modo de produção. A criminalização do aborto, por exemplo, pune seletivamente a mulher trabalhadora e pobre, enquanto o capital privado lucra com a clandestinidade ou com a manutenção da miséria geracional. Assim, a ofensiva contra o corpo é a face mais visível de um projeto que visa reduzir a humanidade à condição de mera engrenagem produtiva e reprodutiva, destituída de desejo e autonomia política.
O feminismo classista e a luta antifascista
Contra a barbárie imposta pelo capital e sua ala de extrema direita, emerge a necessidade premente de um feminismo que não se limite à representatividade institucional ou à quebra do “teto de vidro” das corporações. A resistência atual exige o que Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser denominam como um Feminismo para os 99%. Como afirmam as autoras em seu manifesto, “o feminismo liberal é um feminismo de elite, que busca permitir que mulheres privilegiadas alcancem o poder, enquanto as mulheres que limpam suas casas e cuidam de seus filhos permanecem exploradas” (2019, p. 15). Portanto, a luta antifascista não pode ser apenas por igualdade dentro do sistema, mas um embate frontal contra as bases que sustentam a exploração.
Ao instituir o homem como “chefe de família” e a mulher como sua dependente e cuidadora, o fascismo reforça a estrutura de autoridade necessária para a disciplina proletária e social
A tática central dessa nova vanguarda se consubstancia na Greve Internacional de Mulheres. Ao promover a reiteração da greve como ferramenta de luta e, simultaneamente, estendê-la para além dos muros da fábrica, atingindo o cerne do trabalho doméstico e de cuidados, as mulheres logram demonstrar a vulnerabilidade intrínseca do sistema. Dessa forma, partindo da premissa de que o capital depende umbilicalmente da reprodução social para o seu funcionamento, a interrupção deliberada desse trabalho invisibilizado coloca em xeque a própria dinâmica de acumulação de riqueza.
Sob essa ótica, a resistência antifascista deixa de ser percebida como uma pauta identitária isolada para se revelar como central da luta de classes em sua configuração moderna. Nesse sentido, como argumenta Nancy Fraser (2019), a atualidade é marcada por uma ‘crise do cuidado’ engendrada pelo capitalismo financeirizado; fenômeno este do qual a extrema direita se apropria para instrumentalizar o terror social e oferecer falsas soluções autoritárias e patriarcais. Em contrapartida, o feminismo classista propõe a coletivização dos cuidados e a democratização radical da economia como saídas emancipatórias.

A luta das mulheres é uma das pontas de lança contra o fascismo porque elas são as primeiras, e mais duramente afetadas pelo desmonte dos serviços públicos. Quando o Estado corta investimentos em saúde e educação, ele retira os direitos sociais que garantem a sobrevivência mínima da classe trabalhadora, especialmente das mulheres negras e periféricas. Como aponta Arruzza (2019), o feminismo marxista deve ser “anticapitalista, antirracista e anti-imperialista”, pois entende que o fascismo utiliza essas divisões para enfraquecer a organização popular.
A luta das mulheres é uma das pontas de lança contra o fascismo porque elas são as primeiras, e mais duramente afetadas pelo desmonte dos serviços públicos
O antifascismo de classe, portanto, não separa a luta contra o machismo da luta contra a austeridade neoliberal. A resistência que surge da classe trabalhadora, das ruas, das ocupações e das comunidades, é a única capaz de oferecer uma alternativa real ao projeto de morte da extrema direita. Ao colocar a vida e a reprodução social acima do lucro, o feminismo classista reconecta a classe trabalhadora com um projeto de futuro, transformando a dor da exploração em força organizada para derrubar tanto o fascista quanto o patrão.
Horizontes revolucionários
Em última instância, a luta contra a extrema direita e a ideologia fascista exige o reconhecimento de que o “inimigo” não é um desvio moral, mas o próprio modo de produção capitalista em sua fase de crise aguda. Como demonstramos, não existe conciliação possível entre a plena libertação das mulheres e um sistema que exige a expropriação da reprodução social e a disciplina violenta dos corpos para se sustentar. A resistência das mulheres, ao colocar a vida acima do lucro, deixa de ser uma demanda setorial para se tornar o eixo de uma nova estratégia revolucionária.
Superar a barbárie fascista significa, portanto, organizar a classe trabalhadora para derrubar as bases da propriedade privada e da divisão sexual do trabalho. O horizonte que se apresenta é o da construção de uma sociedade onde a reprodução da vida seja uma tarefa coletiva e socializada, livre da coerção e da exploração. Contra o projeto de morte da extrema direita, o feminismo de classe afirma: a luta antifascista é, necessariamente, uma luta por um mundo emancipado, igualitário e livre.
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Professora, pesquisadora, militante feminista classista do Fortalecer o PSOL e dirigente nacional das Mulheres do PSOL
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Mulher negra, mãe e avó solo, dirigente do PSOL, advogada popular e a vereadora mais votada da cidade de Santos.
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