“O velho mundo está morrendo e o novo tarda a nascer. E nesse claro-escuro surgem os monstros.“
– Antonio Gramsci
O mundo está em ebulição. O capitalismo Ocidental entrou em uma espiral de profunda crise econômica, social e moral, uma crise estrutural. Agravada pela visível perda de hegemonia planetária dos EUA e a decadência da União Europeia. A política interna de Trump contra os imigrantes, através do ICE/Gestapo promovendo sequestros e assassinatos, revela o total abandono das formalidades da democracia burguesa. O planeta virou uma terra sem lei. A subalternidade da Casa Branca ao complexo industrial-militar se intensifica, comprovando que, a despeito do presidente e de sua filiação tendencial no Partido único que governa os Estados Unidos, a lógica expansionista do imperialismo não cessa de ameaçar os povos e governos que ousem afirmar suas soberanias.
A guerra da Ucrânia, fomentada e financiada pelo ocidente através da OTAN e o ataque covarde perpetrado pelos EUA e Israel contra o Irã, são componentes dessa política desesperada do imperialismo Ocidental, na tentativa de inviabilizar a influência da China sobre o Sul Global.
O mesmo podemos dizer do sequestro do Presidente Nicolás Maduro da Venezuela. A ameaça de tomar a Groelândia, o Canal do Panamá, demonstra que não se trata de uma política de um louco na presidência dos EUA, mas sim de uma política de Estado. Um estado em plena decadência. Assim como, o ataque ao direito internacional, a diplomacia e o multilateralismo são faces da mesma jogada política no terreno nacional e internacional.
O genocídio praticado por Israel na Palestina, financiado pelos EUA e apoiado pela Europa, expõe o novo “Modus Operandi” do imperialismo. A diplomacia e o direito internacional cedem espaço para a política dos drones e mísseis. O famigerado “Conselho da Paz”, com Trump se instalando como presidente vitalício são sintomas claros da sintonia dos Estados Unidos aos planos colonialistas do sionismo israelense. Neste caso especial, com interesses empresariais da família Trump, se misturando com os ditames do Departamento de Estado, no planejamento de um território de Gaza sem Palestinos, transformado em espaço de especulação imobiliária em cima de um crime de guerra.
China e Rússia, buscam distensionar o cenário, mas sem sucesso, já que uma intervenção armada direta desses países, significaria o início de uma guerra mundial, onde não haveriam vencedores.

Por trás dessa nova etapa de guerras, confrontos, ameaças e chantagens está a tentativa desesperada dos EUA de bloquear o crescimento econômico e a influência geopolítica da China, que está colocando em prática um projeto econômico, comercial e político, que interliga países e continentes, com uma revolução na infraestrutura, com portos, aeroportos, ferrovias e tecnologia de ponta que trará vantagens comparativas impossíveis de serem alcançadas pelo ocidente imperialista.
Além do avanço da OTAN para o leste europeu e a consequente guerra da Ucrânia, os EUA e Israel, iniciam uma guerra contra o Irã. Esse fato é o mais relevante dessa nova etapa, porque pode avançar e ampliar a regionalização do conflito, com consequências imprevisíveis. O aumento do preço do petróleo, da inflação e o aumento das mortes de populações civis inocentes, são fatos que já podem ser mensurados, mas a resistência do povo persa, pode levar a uma derrota militar e moral para os EUA, Israel e todos os países europeus, que apoiam essa investida covarde. Até agora o que podemos afirmar é que essa aventura não teve o resultado esperado. Não provocou uma rebelião interna contra o regime dos Aiatolás, ao contrário, unificou o povo contra a investida dos EUA/Israel. E, ainda que a mídia coorporativa bata todos os dias contra o Irã, todos veem este país como vítima de um ataque do maior arsenal bélico do planeta, os EUA.
A OTAN é uma organização criminosa a serviço dos interesses das oligarquias norte-americanas e europeias. Essa caracterização está sendo confirmada por décadas.
Foi a OTAN que bombardeou a Iugoslávia-Sérvia em 1999, por 76 dias. No Afeganistão, depois dos EUA armar o Talibã, a OTAN invadiu a região por 20 anos (2001-2021). Em 2003, a invasão do Iraque, foi embasado em mentiras, como a justificativa de que o Iraque tinha armas de destruição em massas. Essa ação liderada pelos EUA, teve a participação do Reino Unido, da Austrália e da Polônia. Em 2011, foi a vez da Líbia, com o assassinato de Muammar Kadafi e a destruição do país que até hoje não conseguiu se estabilizar.
Além do avanço da OTAN para o leste europeu e a consequente guerra da Ucrânia, os EUA e Israel, iniciam uma guerra contra o Irã. Esse fato é o mais relevante dessa nova etapa
O caso mais emblemático é a ofensiva da OTAN sobre o leste europeu desde o desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS em 1991. Esse fato demonstra que a OTAN, leia-se o imperialismo ocidental, não respeita o direito internacional, nem os compromissos diplomáticos. Na ocasião, o acordo era de que a OTAN não avançaria um milímetro para o leste europeu. E foi justamente isso que aconteceu. De lá para cá, praticamente todos os países do leste europeu, que eram área de influência da Rússia foram incorporados a Organização do Tratado do Atlântico Norte, numa clara ruptura com os compromissos assumidos com Gorbachev, então representante da Rússia. Essa política está por trás do conflito entre Ucrânia e Rússia, porque os oligarcas europeus e a CIA dos EUA, financiaram e armaram a Ucrânia para dar o golpe de 2014, que derrubou o governo de Yanukovych, pró-Rússia. A queda de braços entre a Europa e a Rússia, serve aos interesses geopolíticos dos EUA, que instigam o aprofundamento da crise ao mesmo tempo que exigem que os europeus aumentem os gastos militares, com a falsa e ignorante versão de que a Rússia quer invadir a Europa. Nada mais longe da realidade.
No continente africano temos genocídios e guerrilhas financiadas pelos europeus, sauditas e pelos EUA, para que o continente não se estabilize e que siga a sangria das riquezas minerais e o morticínio das populações que buscam soberania nacional e controle de seu território. A grata novidade é a Região do Sahel, onde os países Burkina Faso, Níger e Mali, expulsaram a França colonial. Mostrando que é possível e necessário lutar pela soberania das nações, contra o imperialismo.

Irã: ataque ao Irã pode ser o começo do fim
Todos esses fatos foram brutalmente agravados com o genocídio do Povo Palestino e com o início da guerra covarde e traiçoeira que os EUA e o estado terrorista de Israel iniciaram contra o Irã. É importante registrar que tanto o genocídio Palestino perpetrado por Netanyahu, quanto as guerras iniciadas por Trump, não são políticas executadas por loucos e maníacos, isso não quer dizer que eles não sejam loucos e maníacos – vide os arquivos de Epstein – é mais profundo e preocupante, porque trata-se de ações pensadas e executadas pelos Estados, com suas instituições do regime democrático burguês. Europa, EUA e Israel, estão desesperados para evitar a decadência do Ocidente imperialista. Sabem que sua hegemonia no sistema está com os dias contados.
Europa, EUA e Israel, estão desesperados para evitar a decadência do Ocidente imperialista. Sabem que sua hegemonia no sistema está com os dias contados
Mas o mais importante e que determina a mudança de etapa é que antes os EUA, a Europa e especialmente Israel, acreditavam que eram imbatíveis. Que nenhum país do mundo poderia enfrentá-los. Porém, o que estamos assistindo na guerra contra o Irã é que por maior que seja o potencial bélico dos EUA e Israel, eles não conseguiram uma rendição incondicional do país Persa. Pelo contrário, Irã está resistindo, fortemente e causando prejuízos gigantescos para ambos os países agressores. E para aprofundar a contradição da agressão covarde dos EUA e Israel, Irã não pediu um cessar fogo, pelo contrário, nega que queira negociar e afirma que vai vingar a agressão covarde que EUA e Israel fizeram contra seu país, em plena negociação, assassinando seu líder Supremo, Ali Khamenei.
Os EUA orientaram seus cidadãos para sair do Oriente Médio, porque o Irã está conseguindo driblar as defesas antiaéreas e bombardeando as diversas bases militares dos EUA, datacenters, hotéis que hospedavam militares e CIA na região, como as do Bahrein; Kuwait; Catar; Omã e Arábia Saudita. Além dessa capacidade bélica do Irã, eles ainda estão atingindo cidades importantes, como o aeroporto e prédio da bolsa de valores na capital de Israel, Tel Aviv.
Outra política estratégica do Irã foi demonstrar que pode fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam mais de 20% do petróleo e gás que é comercializado no mundo
Os EUA e Israel, jamais calcularam que o Irã teria capacidade de resistir a ofensiva e muito menos que a nação Persa teria condições de ir para a ofensiva. Outra política estratégica do Irã foi demonstrar que pode fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam mais de 20% do petróleo e do gás que é comercializado no mundo. Esse fato coloca os EUA e Israel numa situação muito delicada, porque a capacidade de resistência do Irã, pode significar um colapso no fornecimento mundial de diversas matérias primas fundamentais para a agricultura e indústria. De imediato, cada dia que o Estreito de Ormuz fica fechado milhões de toneladas de petróleo, gás e outras matérias primas, deixam de circular, aumentando seus preços.
Agora o tempo corre contra os agressores, EUA e Israel, porque o Irã já avisou que não quer negociar com quem não respeita as negociações. O Irã quer vingar o assassinato de seu líder Ali Khamenei, martirizado pelos covardes e genocidas, EUA e Israel.

Essa é a Nova Etapa, onde os EUA seguem agressivos, mas cada vez mais debilitado e isolado. No interior dos EUA a situação não está tranquila para Trump. As massas norte-americanas não apoiam a guerra e estão indignadas com as políticas das oligarquias corruptas de Washington. Por isso saíram às ruas aos milhões contra o genocídio do Povo Palestino; sua base eleitoral e políticos cobram mais transparência nas decisões. As massas de centenas de cidades saem às ruas questionando Trump que age como um Rei – No Kings -; é a solidariedade aos imigrantes, contra a política xenófoba de Trump e sua polícia ICE/Gestapo; ou mais recentemente as manifestações contra a guerra provocada pelos EUA no Oriente Médio. Forte crise na Federação, enfrentamento com governadores e prefeitos em várias partes do país. Essas contradições estão causando indignação em amplos setores da população norte-americana, que já vinha sofrendo com a inflação e o aumento exponencial da miséria em setores expressivos da sociedade.
A resistência e resiliência do Irã no campo de batalha, levará a um aumento da inflação no mundo todo e poderá levar a uma derrota dos EUA e esse fato pode mudar a correlação de forças mundiais, como foi a derrota histórica dos EUA no Vietnã em 1973. Hoje temos alguns aspectos da realidade muito relevantes em relação a etapa anterior. A existência dos BRICS e a política de desdolarização da economia, traz uma dificuldade a mais para os EUA. Se antes eles podiam estender as guerras por anos, porque o mundo financiava o dólar forte, agora a tendência é um endividamento exponencial dos EUA, levando a uma possível estagflação, com consequências políticas e sociais profundas na sociedade norte-americana e na luta de classes internacional.
Brasil: ventos do norte não movem moinhos
Na América Latina a situação é mais candente e desesperadora, por se tratar de fronteiras nacionais interligadas e de uma influência histórica, muito forte dos EUA, seja através de golpes sangrentos ou de alianças com as oligarquias locais, sempre fomos vistos como seu “pátio traseiro”. No ano passado os conflitos começaram com a política do tarifaço, dando uma virada na opinião pública e fortalecendo o governo Lula pelo enfrentamento. 2026 começou com ameaças e chantagens por parte dos EUA contra diversos países do Continente Latino Americano, e já no dia 3 de janeiro os EUA sequestraram o Presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, numa operação de guerra com bombardeios e uso de alta tecnologia. No dia 7 de março, presente, Washington realizou um encontro denominado “Escudo das Américas”, com a justificativa farsesca de “promover a liberdade, a segurança e a prosperidade do hemisfério”. Estavam presentes os presidentes lacaios e de extrema direita: Milei, da Argentina; Rodrigo Paz, da Bolívia; o traficante Daniel Noboa, do Equador; Nayib Bukele de El Salvador – que assumiu a tarefa de centralizar os campos de concentração da atualidade a favor das políticas xenófobas dos EUA -; o golpista Nasry Asfura, de Honduras; José Antonio Kast o novo presidente do Chile. Todos de direita ou extrema direita, que assumem o papel subordinado em relação aos interesses dos EUA na região e em seus países. O resultado da reunião explicitou os reais objetivos dos EUA. Treinar e armar seus lacaios para controlar as riquezas minerais e tentar obstruir a influência da China e Rússia no hemisfério.
2026 começou com ameaças e chantagens por parte dos EUA contra diversos países do continente Latino-americano, e já no dia 3 de janeiro os EUA sequestraram o Presidente Nicolas Maduro e Célia Flores, numa operação de guerra com bombardeios e uso de alta tecnologia
O Ocidente imperialista está esperneando, para não perder a hegemonia do sistema capitalista mundial. Não significa que eles já perderam, mas os sinais de fraqueza estão cada dia mais evidentes.
É nesse contexto histórico que se insere o Brasil de Lula, com suas vacilações. Rememorar a política que o governo de Frente Amplíssima de Lula tem assumido é importante para socializarmos os limites de sua política no terreno internacional e na arena nacional, com sua política econômica social-liberal.
Lula não reconheceu o resultado eleitoral de Maduro. Pelo contrário, fez eco aos golpistas que exigiram as atas de votação. Depois foi determinante no veto a entrada da Venezuela aos BRICS, um erro histórico que não corresponde sequer a política tradicional do Itamarati. Mais recentemente, Lula declarou que o sequestro e a prisão de Maduro e Cilia Flores não eram relevantes para o debate da conjuntura. Além disso, o Governo Federal, mantem relações diplomáticas e comerciais com o estado genocida e fascista de Israel.
Esses fatos corroboram nossa caracterização de que os governos subordinados ao imperialismo ocidental, no terreno internacional e que não abandonaram as exigências do Consenso de Washington de estado mínimo, só jogam água no moinho da extrema direita – vide Boric no Chile, que ao não romper com a lógica neoliberal, perdeu as eleições para a extrema direita. Kast reivindica a ditadura de Augusto Pinochet, só isso deveria servir de alerta para os governos “progressistas”, que tentam resolver a crise do capital, aplicando mais e mais políticas neoliberais, de ataque a tudo o que é público e retirando direitos da classe. Mantém uma política econômica manietada pelo Arcabouço Fiscal, um gargalo sem igual em nenhum país do mundo. Lula quando se trata de austeridade, quer ser mais real que o rei. Mas tem que estar atento, a resposta pode vir no voto.
Estamos em ano eleitoral e as pressões de Washington tendem a aumentar, para que Lula se afaste dos BRICS ou que pelo menos não abra mais espaço para que a China expanda sua influência – vide a reunião que formou o “Escudo das Américas”. E na disputa pelas “terras raras” que são determinantes para as novas tecnologias em todos os ramos da economia.
Na disputa eleitoral propriamente dita, tudo ainda está em aberto. A direita (Centrão) e a extrema direita bolsonarista não fecharam uma tática para derrotar Lula. O Centrão segue observando por onde pode ganhar mais, se aliado com Lula ou com o bolsonarismo.

Uma coisa é certa, Lula precisa redefinir seu programa. Iniciando por uma política de reaproximação com os países latino-americanos que resistem ao assédio dos EUA. Na prática significa apoio irrestrito a Cuba, Venezuela, México e a Colômbia. E, esse programa tem que ser capaz de empolgar os setores progressistas que já votaram em Lula e vão seguir votando, mas sem acreditar que o próximo governo vá mudar a correlação de forças. Sem isso, não haverá campanha espontânea nas ruas e isso fará toda a diferença no resultado eleitoral.
Por isso, nós defendemos no último diretório nacional do PSOL, não a Federação com o PT e, apresentamos a proposta de que o partido tenha um programa para mudar o Brasil e derrotar a direita e a extrema direita bolsonarista nas ruas e nas urnas.
Os planos de austeridade, como o arcabouço fiscal, são a base da crescente insatisfação das populações mais vulneráveis e de amplos setores da classe média e isso é fermento para a extrema direita. Por isso, precisamos lutar contra o neoliberalismo, independente de quem o aplica.
O PSOL nasceu da luta contra as políticas neoliberais e precisa seguir com total autonomia e independência em relação aos governos de Frente Ampla. Essa independência é que colocou o PSOL do lado dos Povos Originários no Pará, contra a privatização dos rios amazônicos; ao lado dos educadores e das universidades em greve e das mobilizações dos trabalhadores de aplicativos. Em defesa da soberania nacional e das riquezas minerais, como é o caso das “Terras Raras”. Todas essas lutas se chocam com o famigerado arcabouço fiscal, com o agronegócio e com os interesses do capital internacional.
Compreender a atual situação do Brasil no contexto internacional, de perda de hegemonia do imperialismo ocidental em relação a China. Entender que a crise estrutural do capitalismo levará inevitavelmente a mais pressões por parte dos EUA, para que o Brasil se afaste dos BRICS e que, ao mesmo tempo entregue as riquezas minerais as companhias norte-americanas. São partes dos desafios da esquerda consequente que não abandonou a estratégia socialista.
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Historiadora, Secretária Geral do PSOL Nacional
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Professor e membro da Executiva Nacional do PSOL.
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Membro do Diretório Nacional do PSOL e coordenador da Agência Alternativa Mídia e Gestão
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Jornalista, ex-deputado, fundador e membro da Direção Nacional do PSOL.
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Coordenação Nacional do Fortalecer o PSOL





